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4.5.15

Dias Chuvosos

fotografia: Bruna Grego



"Que barulho faz a chuva quando te abraço assim?,

há um texto para escrever, o drama de um escritor é haver sempre um texto para escrever, e é também a sua sorte, não faço sentido mas sabes-me bem, 

ontem o teu cabelo cheirava a abraço, 
lembro-me de nunca um nariz ser tão feliz, as coisas que eu escrevo, meu Deus, podia dissertar sobre a crise, os mercados e a subida do rating ou lá o que é, mas prefiro dedicar-me à mistura das gotas da chuva na janela com o ligeiro fio de suor que escorre pelo meio do teu peito, 
quando dormes Deus acorda para ter ver dormir, 
os católicos não sabem mas o milagre é amar-te, viraste-te de repente para o lado de cá, tanto que havia para escrever e só consigo escrever-te, 
que desgraça és tu que me fazes feliz?, 
havia talvez a necessidade de explicar a existência de dívida soberana, desancar em dois ou três políticos, ou mesmo mais ou todos eles, só eu sei como eles merecem, mas quando volto aqui só escrevo o poema que me mostras, 
todos os que amam são poetas, 
pelo menos os que amam assim, com o verso sempre interrompido, tudo para dizer e tão poucas palavras para mostrar, 
quantos dicionários exige o teu corpo?, 
e isto para não falar sequer da tua voz, da maneira inadmissível como dizes que me amas e eu acredito, já são nove da noite e tenho de entregar um texto às dez, pára de me olhar, e tu paras, viras-te para o outro lado mas não chega, começo uma frase qualquer sobre uma coisa qualquer, acho que desta vez era sobre desporto, vê lá tu, mas depois as tuas costas, 
bastam as tuas costas para criar um génio, 
daqui a nada o prazo passou mas que se lixe, deixa-me escrever num instante a vontade da minha língua em ti, a importância absoluta das tuas mãos, ou até mesmo a calma do teu colo quando me dói, faltam cinco minutos para as dez e já tenho um e-mail do editor, agora é que vai ser, vou escrever sobre a solução para a tristeza no país, debitar duas ou três banalidades, citar alguns autores famosos para toda a gente me respeitar, e depois está feito, espera um pouco que já volto, aqui vai disto, uma frase já foi, agora mais outra, mas ainda aqui estás e quando dou por mim já escrevi quatro ou cinco frases sobre a falta que me fazes quando não estás, a dimensão absurda do sofá sem ti, olho para o relógio e são dez, 
o que hei-de fazer para escrever algo que não tu?, 
carrego no botão enviar e já foi, uma crónica inteira sobre ti, espero que não estranhem, afinal de contas é a primeira vez que te dedico uma crónica inteira, pelo menos hoje, claro, ontem e anteontem tenho a ideia de já ter sido assim, 
ainda demoras muito a dar-me um abraço de parabéns? "


Pedro Chagas Freitas

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